terça-feira, 30 de abril de 2013

Evangélicos lotam primeira igreja gay no Tatuapé

Quando os pastores Marcos Gladstone e Fabio Inácio de Souza iniciaram o culto de inauguração do primeiro templo da Igreja Cristã Contemporânea em São Paulo, no Tatuapé, na noite deste sábado (27), o espaço de 700 metros quadrados estava tão lotado que foi preciso improvisar cadeiras e um telão para que os fiéis pudessem acompanhá-lo.

A Igreja Cristã Contemporânea possui os mesmos rituais de todas as outras: batismos, casamentos, reuniões semanais. Mas se destaca por um motivo especial na pregação da palavra de Deus: ao contrário das igrejas evangélicas tradicionais, dá novas interpretações para trechos bíblicos que as outras costumam usar para condenar a homossexualidade, e prega que “os homossexuais também podem herdar o Reino dos Céus”.

Foi o que disse o pastor Marcos Gladstone, que também é fundador da igreja, durante o culto de inauguração da nova sede, ressaltando, também, que a Igreja Cristã Contemporânea não é “exclusivamente homossexual”, mas inclusiva — e não “exclusiva” –, o que os impulsiona a pregar o Evangelho a todas as pessoas, sem preconceitos.

“O comprometimento no acolhimento de homoafetivos acontece pela percepção de que eles são marginalizados e condenados a uma vida de opressão e distanciamento dos planos e propósitos do Senhor pela própria comunidade cristã”, explica o pastor Gladstone.

A Igreja Cristã Contemporânea já possui seis templos no Rio de Janeiro e um em Minas Gerais. Agora, inaugura sede em São Paulo com o slogan “Levando o amor de Deus a todos, sem preconceitos” e uma programação religiosa aberta ao público que inclui balada gospel, encontro de solteiros e casais e de grupos de apoio à adoção.

“A meta é fundar mais dez igrejas na capital”, disse o pastor Gladstone, que já foi seguidor da Igreja Universal do Reino de Deus por quatro anos, até assumir-se homossexual.

Os fiéis da Igreja Cristã Contemporânea são heterossexuais, homossexuais, transexuais; homens de terno e gravata; drag queen’s “super produzidas” que assistem ao culto de mãos dadas, se abraçam e profetizam: “a promessa do Pai também vai se realizar na sua vida”.

Valder Bastos é ator há mais de 10 anos e interpreta a drag Tchaka na noite da capital paulista. Conhecida como “a rainha das festas”, Tchaka –como gosta de ser chamada– já participou de mais de 4.000 eventos e diversos programas de TV, sempre maquiada e de salto alto, usando peruca; mas esta é a primeira vez em que assiste a um culto “montada”.

A travesti Valeska Castelani viajou de Minas Gerais, onde é frequentadora da Igreja Cristã Contemporânea, a São Paulo, especialmente para conhecer o novo templo.

“Vale a pena a viajar tantos quilômetros para estar em um lugar onde não há preconceito”, afirma Valeska, que diz ter sofrido discriminações em outras igrejas por conta de sua orientação sexual.

Nas palavras do pastor Gladstone, a Bíblia não condena a homossexualidade, e, sim, os rituais pagãos. Ele defende que algumas traduções do livro sagrado dos cristãos foram feitas de forma “maliciosa”, e cita como exemplo o texto de número um do Coríntios, capítulo seis, versículo nova da Bíblia.

“Versões preconceituosas traduziram o trecho como ‘Efeminados e sodomitas não herdarão o Reino dos Céus’; porém, o escrito original do grego diz ‘Depravados e pessoas de costumes infames não herdarão o Reino dos Céus'”, observa.

Outra interpretação bíblica atacada pelo pastor é a de que a cidade de Sodoma teria sido destruída por causa dos homossexuais. Ele explica que a Bíblia relata que os sodomitas queriam abusar sexualmente de anjos que passavam pela cidade; e que Ló (personagem bíblico) chegou a oferecer suas filhas aos abusadores para que estes deixassem os anjos em paz.

De acordo com o pastor, Ló jamais “ofereceria mulheres a um bando de homossexuais abusadores”.

“Sodoma cometeu abominação por sua constante hostilidade, segregação e agressão ao ser humano. Trazendo esta questão para os nossos dias, podemos afirmar que o papel ‘sodomita’ atualmente é desempenhado pelas próprias igrejas homofóbicas, pelo alto grau de rejeição a seres humanos, vidas, enfim, a toda uma comunidade de pessoas que Deus aceitou em amor”, concluiu o pastor.

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